Um pequeno avião decola de um aeroporto em Nova Jersey e dentro dele uma equipe se prepara para fazer imagens de outros aviões que decolam logo em seguida. Esse “Photoship” como é conhecido o bimotor Beechcraft 95-B55 Baron leva equipamentos de fotografia e uma tripulação de duas pessoas, composta pelo piloto e pelo fotógrafo nascido em São Paulo (SP) e radicado nos Estados Unidos Ricardo von Puttkammer.

O objetivo da missão é registrar imagens do avião C-47 “D8”, juntamente com os aviões T-6 Texan SNJ-2 da Esquadrilha GEICO Skytypers, enquanto sobrevoam a cidade de Nova Iorque e alguns dos seus pontos turísticos mais conhecidos, como a estátua da liberdade e os céus de Manhattan.

Ricardo herdou a veia artística do seu Pai, Sérgio Von Puttkammer, mais conhecido como Viana Júnior, que atuava no programa humorístico “A Praça da Alegria”, na antiga TV Record (SP), que posteriormente foi intitulado “A Praça é Nossa” no SBT. Viana Júnior tinha como personagem o Apolônio, aquele que ia à loucura com as conversas com a Velha Surda (Roni Rios).

Também herdou da mãe, D. Cleuza, o gosto pela fotografia e já aos 12 anos usava sua câmera para fazer as primeiras imagens de arquitetura, prédios e fotos artísticas na região da Avenida Paulista em São Paulo (SP). Com o passar do tempo, porém, a fotografia ficou adormecida. No final de 1980 teve a oportunidade de participar de um intercâmbio nos Estados Unidos, onde foi estudar em Charlote na Carolina no Norte.

O Ricardo nos contou que sempre gostou de montar “Kits” plásticos de aeromodelos em escala, distração que tenta manter até hoje. O reencontro com a fotografia veio em razão do plastimodelismo que o motivava a ir aos shows aéreos na Carolina do Norte com o objetivo de fotografar os detalhes dos aviões – caixas de rodas, canopi, painéis etc. – para reproduzi-los nos seus modelos em pequena escala.

Apesar da mudança para Nova Iorque, manteve o hábito de ir a shows aéreos, só que agora com a intenção de fotografar os aviões em voo e a cerca de 15 anos transformou o gosto pela fotografia em algo mais sério: sua profissão. Atualmente, Ricardo Von Puttkammer é reconhecido como um dos mais proeminentes fotógrafos de aviação nos Estados Unidos e do mundo.

Seu talento, profissionalismo e parceria com Dam Adams – Editor-Chefe do site Aviation PhotoJournal lhe permitiram acesso privilegiado aos mais importantes shows aéreos realizados não só nos Estados Unidos como em outros países. Ricardo nos confessa que nos últimos anos o seu estilo de fotografia tem mudado de direção na tentativa de buscar uma distinção entre trabalhos já realizados e até mesmo dos trabalhos que se vê no mercado, inovando por meio de close-ups e especializando-se na fotografia a2a (Air to Air).

Conforme relata, “Nos últimos anos eu gosto de tirar mais foto close-ups de aviões, porque a maioria das aeronaves voando hoje em dia já foi fotografada por quase todos os fotógrafos. Todos tiram fotos deles e eu tento de fazer coisas mais distintas…”. Em razão disso, o Ricardo tem optado por usar câmeras de alta resolução (Canon 5DMkIV e Sony A7IV), que lhe permitem trabalhar o enquadramento ideal e o corte na pós-produção, sem, contudo, afetar a qualidade final das suas imagens.

Aproveitamos a oportunidade de estar por algumas horas na companhia do Ricardo em Nova Iorque e fizemos um Q&A com ele no trajeto entre o aeroporto de La Guardia e o Jacob Javits Convention Center onde fomos juntos conferir as novidades da PhotoPlus Expo 2019.

Confira abaixo:

Q: O que mais lhe motiva a escolher fotografar um show aéreo? São os tipos de aeronaves, locação etc.?

A: No começo eu ia a qualquer show aéreo que tivesse chance, participando como público em geral. Daí comecei a ir como imprensa e a ter mais acesso. Depois de tantos anos fazendo isso, já tirei fotos de tudo quanto é avião voando nos Estados Unidos e na Europa. Então hoje em dia eu escolho os que vou mais em função de quem está se apresentado, amigos meus que faz tempo que não vejo etc., mas geralmente eu vou aos mesmos eventos.

Q: Ricardo, suas imagens são impressionantes. Tenho visto imagens a2a suas que são lindas. Qual a técnica que você usa para fazê-las, mostrando em muitos casos os olhos dos pilotos dos aviões que estão sendo fotografados. São as lentes, modo de disparo, qual é o segredo?

A: É a combinação de todos esses fatores. a2a sempre foi uma coisa que eu queria fazer e sempre falo para alguns amigos que é preciso ir com pequenos passos pois leva muito tempo para os pilotos ou os donos de aviões confiarem em mim e me levarem para voar. Nos últimos dois, três anos eu tenho feito mais fotos a2a e atualmente eu estou voando com um amigo que comprou Beachcraft Baron que pertencia à campeã americana de acrobacia aérea Patty Wagstaff.

Esse avião já veio preparado para ser um Photoship, pois as janelas abrem em voo e tem uma escotilha no piso do avião que pode também ser aberta em voo, permitindo fotografar aviões voando logo abaixo de nós.
Em 2019 temos feito muitas fotos a partir desse avião e estamos estudando o mercado para ver se conseguimos montar um negócio. Vamos ver o que acontece no próximo ano.

Para fazer as fotos através do piso desse avião eu tenho usado a Sony A7RIII montada em um RIG com um braço, acoplado a um sistema de estabilização, conectada a um monitor externo onde faço o enquadramento e as fotos olhando somente para esse monitor.
O proprietário do Beechcraft Baron construiu um cone para desviar o vento. Ao atingirmos a altitude desejada para as fotos, colocamos o cone através de uma escotilha no piso da aeronave. Ele serve para reduzir a vibração uma vez que a câmera fica posicionada fora do avião. Temos usado essa técnica no último ano.

Para fazer as fotos pelas duas janelas abertas de cada lado, uso a Canon 5D MkIV acoplada um estabilizador de 3 eixos. É esse equipamento que possibilita fazer fotos do disco da hélice em voo e o avião totalmente nítido. Sem isso seria quase impossível fazer as fotos que fazemos. A velocidade do obturador que uso para fazer o “full disk” em voo é entre 1/50 e 1/80, dependendo da rotação do motor do avião sendo fotografado.

Ricardo em ação no “Photoship”

Q: O que você considera mais importante observar na fotografia de aviação. Velocidade do obturador, Sensibilidade (ISO), Modo de exposição etc.?

A: São tantos fatores como luz, umidade do ar no dia etc. Esse ano quase todos os shows do F-35 Demo Team que fui tinha bastante umidade e isso gera os vapores no avião e torna as fotos bem mais interessantes. Desses fatores citados depende o que estou fotografando. Se estiver fazendo imagens de aviões a jato eu uso sempre uma velocidade mais alta, mas também depende da combinação lente/câmera que estou usando no dia. Há alguns meses atrás comecei a usar a Sigma 500mm f/4 com um duplicador 2.0x na Canon 5DMkIV tornando-a em uma lente 1000mm, que me ajuda a fazer fotos bem aproximadas dos aviões quando estou fotografando do chão. Lá em cima não dá para usar essa lente. Fica difícil (risos).

Q: Vamos falar um pouco sobre seu workflow de pós-produção. Você me falou que ultimamente tem preferido fotografar a uma taxa de disparo reduzida, diferentemente de quando começou que parecia uma metralhadora. Você usa RAW ou JPEG?

A: Bem, eu comecei a usar RAW há muito tempo. Ainda faço fotografias em RAW e JPEG, mas nos últimos anos tenho trabalhado quase exclusivamente com RAW.

Q: Quais softwares você usa no tratamento de suas imagens RAW?

A: Eu uso Camera Raw e Photoshop CC, DxO Photolab, Nik Collection e Topaz Labs.

Q: Além de ser conhecido por suas imagens, você também é conhecido pela maneira peculiar como vai vestido aos shows aéreos. Vamos falar um pouco sobre esse personagem, se é que existe um, e como começou essa maneira descontraída de se vestir?

A: Bem, não existe um personagem. Isso começou quando fui para o show aéreo de Avalon, Austrália em 2009. Eu comprei um chapéu nesse show aéreo e o chapéu ficou velho. Quando retornei a Avalon, eu resolvi comprar outro chapéu, só que dessa vez de couro de canguru. Comecei a usar com um colete e um óculos que uso há uns 10 anos e que por sinal já troquei as lentes várias vezes (risos). Adotei também as joelheiras que ajudam quando você se abaixa para fazer as fotos e fui melhorando esse estilo de me vestir. O mais interessante é que atualmente as pessoas querem tirar fotos comigo nos shows aéreos.

Q: Esse personagem te fez ser mais conhecido nos shows aéreos? Como as pessoas reagem ao seu personagem nesses shows? Acham divertido etc.?

A: Quando comecei a ir aos shows aéreos vestido assim eu não era vinculado a imprensa. Era mais uma forma de me diferenciar dos demais fotógrafos. O interessante hoje em dia é que o personagem ficou bem conhecido nos eventos aéreos. Anualmente, em dezembro, a indústria de shows aéreos se reúne em Las Vegas, NV. É lá que são fechados os negócios e contratos dessa indústria e sempre vou a esses encontros. Quando ando pelos salões do evento sem estar vestido como o personagem nem todos me reconhecem. Porém temos um dia na convenção que os militares e equipes usam seus uniformes. Nesse dia coloco meus óculos e o chapéu e daí todos me reconhecem.

Q: Hoje, para você, o hábito que começou com a necessidade de detalhes para os seus kits Revell transformou-se em uma profissão. Que dica você daria às pessoas que gostariam de investir na fotografia de aviação como uma profissão.

A: Eu sempre falo que o que deu certo para mim foram os pequenos passos “baby steps”. Vejo fotógrafos que ficam “muito em cima” dos pilotos e donos de avião, pedindo para voar e fotografar etc. Eu tento evitar isso ao ponto em que já devo ter perdido várias oportunidades, mas por outro lado ganhei muitas outras por não ter esse comportamento. Tenho vários amigos na indústria de shows aéreos e a vezes eles comentam que determinado fotografo é muito bom, mas está sempre “em cima” e buscando oportunidades, o que acaba tornando-os “chatos”. Pessoas assim podem até conseguir alguma coisa, mas não vão conseguir os melhores acessos, exatamente por agirem dessa forma.

Para conferir mais sobre o trabalho do fotógrafo Ricardo von Puttkammer visite o site Aviation PhotoJournal. Lá você poderá conferir as imagens e até mesmo comprar cópias impressas na loja online.

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